Passeando por sites e mais sites sobre teatro eu sempre acabava caindo em listas com peças essências para atores; Nomes como Shakespeare, Samuel Beckett, Arthur Miller, Tennessee Williams, Harold Pinter, entre outros, pipocavam na tela, inclusive posso postar essa lista para todos, mas senti falta do que é nosso nessas listas.
Falar que Nelson Rodrigues, Plínio Marcos e Chico Buarque são grandes nomes do teatro brasileiro é chover no molhado, mas você já ouviu falar de nomes como o de Oduvaldo Vianna Filho ou de Antonio Bivar? Conhece as grandes mulheres da dramaturgia nacional? Já ouviu falar das peças atuais que já se tornaram ícones como “Luís Antônio – Gabriela” e “Pessoas Perfeitas”? Sabia que o Golpe Militar de 64 censurou dezenas de peças que acabaram se tornando símbolos de luta e resistência no Brasil?

Confira nessa lista as 50 peças mais importantes do teatro nacional, com link para você assistir  o espetáculo na integra ou parte dele. Informamos que  algumas montagens são feitas por companhias amadoras ou grupos de teatro de escolas fundamentais.

Gota D’Água – Chico Buarque e Paulo Pontes – 1975
Dividida em dois atos, A Gota d’Água espelha uma tragédia urbana, banal nos grandes centros, nas favelas do Rio de Janeiro, onde está ambientada; os sets retratam um botequim, local de encontro dos homens e, ao lado, o set das lavadeiras, onde as personagens femininas conversam. No set da oficina, está o velho Egeu, e onde passam alguns amigos.A peça retrata as dificuldades vividas por moradores de um conjunto habitacional, a Vila do Meio-Dia, que na verdade são o pano-de-fundo para o drama vivido por Joana e Jasão que, tal como na peça original, larga a mulher para casar-se com Alma, filha do rico Creonte. Sem suportar o abandono, e para vingar-se, Joana mata os dois filhos e suicida-se.

A ideia foi originalmente derivada de um trabalho de Oduvaldo Viana Filho, que adaptara a peça grega clássica de Eurípedes sobre o mito de Medeia, para a televisão, e à memória do qual foi dedicada.
Para liberar a peça, da censura, na época, Paulo Pontes teve que negociar alguns cortes. Ainda assim, foi sucesso de público e de crítica. A peça foi premiada com o Prêmio Molière que os autores recusaram em sinal de protesto contra a proibição, no mesmo ano, de obras de outros autores, como “O abajur lilás”, de Plínio Marcos e “Rasga coração”, de Oduvaldo Vianna filho.

Dois Perdidos numa noite suja – Plínio Marcos – 1966

O texto é inspirado no conto O terror de Roma do escritor italiano Alberto Moravia. Dois personagens —- Paco e Tonho —- dividem um quarto numa hospedaria barata e durante o dia trabalham de carregadores no mercado. Todas as cenas se passam no quarto durante as noites. As personagens discutem sobre suas vidas, trabalho e perspectivas, mantendo uma relação conflituosa. O tema da marginalidade permeia todo o texto. Tonho se lamenta constantemente por não possuir um par de sapatos decente, fato ao qual atribui sua condição de pobreza. Ele inveja Paco que possui um bom par de sapatos e este, por sua vez, vive a provocar Tonho chamando-o de homossexual ao mesmo tempo que o considera como um parceiro. Paco, que já havia trabalhado como flautista, certa noite teve sua flauta roubada quando estava muito embriagado, entorpecido. No final, na tentativa de melhorar suas vidas, ambos são compelidos à realização de um ato que modificará radicalmente suas vidas.A peça foi apresentada pela primeira vez no mesmo ano, 1966, no Bar Ponto de Encontro, para uma pequena plateia. Foi adaptada para o cinema duas vezes, sendo a primeira no ano de 1970 sob a direção de Braz Chediak e a mais recente no ano de 2002 sob a direção de José Joffily. É uma das peças mais famosas de Plínio, tendo sido montada inúmeras vezes tanto no Brasil como em outros países.

Abre a Janela e Deixa Entrar o Ar Puro e o Sol da Manhã – Antônio Bivar – 1968

3

A peça narra o cotidiano de duas presidiárias que se tornam grandes amigas e companheiras, por já estarem juntas a algum tempo, e por terem a consciência também de que permanecerão na prisão pelo resto de suas vidas. Ambas passavam o dia trabalhando na confecção de flores de cetim, e durante a noite se revezavam para namorar o carcereiro. Tempos depois, entra a nova carcereira, Azeredo, que passa os dias a atormentar suas vidas.

Não encontramos cenas desse espetáculo porém colocamos uma Entrevista  Antônio Bivar , autor desse espetáculo

A Beata Maria do Egito – Rachel de Queiroz – 1958

História inspirada na tradição das beatas de Juazeiro do Norte, Ceará, no século 19, e escrita como uma peça de teatro. Na trama, que se passa em 1914, a beata Maria do Egito recruta populares para se juntarem à rebelião que Padre Cícero lidera em Juazeiro. Seu caráter revolucionário faz com que o latifundiário coronel Chico Lopes obrigue o tenente João a prendê-la, o que traz uma grande tensão ao enredo, causada pela iminência de um ataque dos romeiros. A situação é agravada pela atração que o tenente sente pela moça. Ao perceber o interesse da beata, que tenta conseguir a liberdade, o tenente decide mantê-la presa, apesar da ameaça do ataque popular à delegacia. Porém, o cabo Lucas simpatiza com a causa da Beata e entra em conflito com o tenente, enquanto a delegacia está quase sendo invadida. Na situação, o tenente toma a beata como refém e o cabo tenta desarmá-lo, chegando, assim, na decisão entre dois amigos em uma luta de morte. Percebe-se na obra, a perfeição da linguagem, a clareza e realismo dos diálogos, os cenários nordestinos bem desenhados, a pesquisa histórica e a força indiscutível das personagens femininas.

Álbum de Família – Nelson Rodrigues – 1945

 Retrata uma família que, sob a ótica do locutor (que espelha a da opinião pública,) é perfeitamente normal e feliz, mas que cuja intimidade no lar é caracterizada por uma rede de paixões

incestuosas e perversões diversas. Jonas, o patriarca, tem o hábito de trazer garotas de 12 a 16 anos para casa para desvirginá-las e, com isso, extravasar o desejo sexual que sente pela filha caçula, Glória. Conta, para isso, com a ajuda da cunhada Rute, que, apaixonada, faz qualquer coisa por ele. Glória, por outro lado, tem uma adoração pelo pai que, aparentemente, também está além de ser meramente filial.

O primogênito, Guilherme, também se sente atraído pela irmã Glória, tendo chegado ao ponto de se castrar para evitar consumar seu desejo. Já o segundo filho, Edmundo, é perdidamente apaixonado pela mãe, D. Senhorinha, paixão esta que impede que ele consiga consumar seu casamento com Heloísa. D. Senhorinha, por sua vez, nutre um amor proibido pelo terceiro filho, Nonô, que, tendo enlouquecido subitamente há alguns anos, devido a um contato incestuoso com sua mãe, passou a correr nu pelos campos da fazenda onde se passa a história, urrando e gritando constantemente.

A história principal é interrompida regularmente para que sejam mostradas ocasiões, em diferentes épocas, nas quais membros da família são fotografados para um álbum. Tais cenas são acompanhadas pela voz do locutor, que sempre descreve a virtude e a felicidade daquelas pessoas, contradizendo o que é mostrado ao público ao longo de toda a peça.
Foi proibida no ano seguinte à sua publicação, e só liberada para encenação em 1965. Foi inicialmente protagonizada por Luiz Linhares e Vanda Lacerda, em 1967.

A Moratória – Jorge Andrade – 1955 

O texto enfoca a crise na produção cafeeira nacional gerada pela quebra da Bolsa Valores de Nova York e acompanha a derrocada de uma aristocrática família reduzida subitamente à pobreza. Centralizando o conflito está o velho Quim, um coronel à antiga, que vê os filhos e a mulher minguarem, saudosos dos velhos tempos e sem perspectivas de futuro. Ambientada em dois momentos – os anos de 1929 e 1932, antes e depois do desastre econômico, a estrutura dramatúrgica intercala cenas na casa da fazenda e cenas na pequena casa da cidade, onde a família passa a viver dos modestos ganhos dos filhos, especialmente de Lucília, que se torna costureira. Esse recurso permite ao autor apresentar o verso e o reverso das situações, justificando comportamentos e projetando expectativas. A alternância entre os dois momentos, mostrados simultaneamente, constitui-se no trunfo maior da arquitetura cênica de A Moratória.

Pessoa Perfeitas – Ivam Cabral / Rodolfo García Vázquez  – 2014

Longe da simplificação rasteira, as personagens de “Pessoas Perfeitas” sussurram, imperativas, à microrrevolução de sua interioridade afetiva para a observação da nossa vida. Parecem significar cada vez mais a nós mesmos, na medida em que são enganadas entre si, enredadas na dramaturgia da própria performance. Trata-se de pessoas comuns e extraordinárias: não é fácil escrever figuras tão perto da realidade de nossas vidas sem cair num dramalhão de insignificância cênica. “Pessoas Perfeitas” já é um marco na nossa dramaturgia.

Auto da Compadecida – Ariano Suassuna – 1955

O “Auto da Compadecida” consegue o equilíbrio perfeito entre a tradição popular e a elaboração literária ao recriar para o teatro episódios registrados na tradição popular do cordel. É uma peça teatral em forma de Auto em 3 atos, escrita em 1955 pelo autor paraibano Ariano Suassuna. Sendo um drama do Nordeste brasileiro, mescla elementos como a tradição da literatura de cordel, a comédia, traços do barroco católico brasileiro e, ainda, cultura popular e tradições religiosas. Apresenta na escrita traços de linguagem oral [demonstrando, na fala do personagem, sua classe social] e apresenta também regionalismos relativos ao Nordeste. Esta peça projetou Suassuna em todo o país e foi considerada, em 1962, por Sábato Magaldi “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro”. A peça foi adaptada para o cinema pela primeira vez em 1969 com o filme A Compadecida. Na segunda vez em 1987 com o filme Os Trapalhões no Auto da Compadecida. Foi apresentada em 1999 na Rede Globo de televisão como minissérie, O Auto da Compadecida (em que há um acréscimo do artigo “o” antes do nome original). Na terceira e mais conhecida adaptação feita para o cinema em 2000, é chamada também de O Auto da Compadecida, nela aparecem alguns personagens como o Cabo Setenta, Rosinha e Vicentão. Eles não fazem parte da peça original, e sim de A Inconveniência de Ter Coragem, também de Ariano Suassuna. Sua primeira encenação foi em 1956, em Recife, Pernambuco. Posteriormente houve nova encenação em 1974, com direção de João Cândido.

Rasga Coração – Oduvaldo Vianna Filho – 1974


Rasga coração utiliza da técnica dramatúrgica do flashback para traçar um painel histórico que percorre aproximadamente 40 anos da história política do Brasil. Estabelecendo dois momentos cruciais para formação mesma da consciência política do homem brasileiro (1930 a 1945 e 1972), aborda o primeiro governo Vargas, desde a Revolução de 30, passando pelo Estado Novo até a redemocratização em 45; a partir daí, opera um salto temporal e nos apresenta os primeiros anos da década dos 70, com a ditadura militar atingindo o seu mais alto grau de repressão na luta contra a “subversão” e o “comunismo internacional”.
Foi o último texto teatral do ator, diretor e dramaturgo brasileiro Vianinha, integrante do Teatro de Arena de São Paulo. O dramaturgo terminou de escrever Rasga Coração pouco antes de morrer vitimado por um câncer pulmonar, aos 38 anos, em 1974. Depois de anos sob censura durante o regime militar de 1964, Rasga Coração foi finalmente liberada e estreou no Teatro Vila-Lobos no Rio de Janeiro na década de 1980, encenada pelo diretor José Renato Pécora, também integrante e fundador do Teatro de Arena de São Paulo, com elenco formado principalmente por atores da Geração dos anos 1970 da Escola de Teatro da UNIRIO como Vera Holtz, entre outros colegas e protagonizada por Raul Cortez.

A Partilha – Miguel Falabella – 1991

Após muito tempo afastadas, quatro irmãs se reencontram durante o enterro da mãe, para fazer um levantamento dos bens da família e rediscutir suas próprias vidas. As divergências são inevitáveis, pois elas seguiram caminhos muito diferentes: Selma, a irmã mais conservadora, está casada com um militar e leva uma vida disciplinada na Tijuca; Regina, é liberada, esotérica, não costuma se reprimir e tem uma visão “alto astral” da vida; Maria Lúcia (Marilu) abandonou um casamento convencional e o filho para viver um grande amor em Paris; e Laura, a caçula, revela-se uma intelectual sisuda e surpreende as irmãs com suas opções. Durante o encontro, elas discutem e brigam mas, ao mesmo tempo, relembram os bons tempos passados e descobrem muitas novidades sobre elas mesmas.Vivem intensamente suas afinidades, seus problemas e suas diferenças.

A peça ficou em cartaz por 6 (seis) anos. Chegando a cerca de 12 países.

Considerando-o “o primeiro texto de maior fôlego de Miguel Falabella”, o crítico Macksen Luiz avalia que ele “conta com simplicidade uma história que mexe com a memória afetiva do espectador, utilizando-se do riso como uma arma infalível para desmascarar o triste mas belo sentimento humano de perseguir a felicidade”. A peça foi escrita por Miguel, depois de uma ideia que a atriz Natália do Vale deu a ele, quando os dois atuavam como irmãos na novela O Outro, onde também atuava Arlete Salles, outra atriz da montagem original. A peça fez tanto sucesso que Miguel Falabella escreveu em 2000, a continuação A vida passa, e em 2002 o filme A Partilha.

O Homem e o Cavalo – Oswald de Andrade – 1934

Esta peça é a mais radical ruptura de Oswald com o teatro naturalista. Trata-se de uma viagem panorâmica pela história da humanidade, mas sem nenhuma preocupação com a lógica linear, é formada por nove quadros que procuram, em conjunto, fazer um balanço do capitalismo e, nas laterais, condenar o fascismo e discutir o socialismo.

Novas Diretrizes em Tempos de Paz – Bosco Brasil – 2001

O texto, cuja ação se passa durante a ditadura de Getúlio Vargas, já no final da Segunda Guerra Mundial, narra a história de um judeu polonês, refugiado de guerra. Tentando conseguir seu visto de entrada no Brasil, acaba interrogado por um agente alfandegário e ex-torturador da polícia política de Vargas na sala de imigração do porto do Rio de Janeiro em abril de 1945, gerando um grande embate ideológico que discute a condição humana e os horrores do preconceito político e racial, onde cada oponente procura buscar e negar suas diversas identidades. Esta peça foi adaptada para o cinema em 2009 — sob a direção de Daniel Filho — e lançada no Brasil com o título Tempos de Paz.

Pluft, o Fantasminha – Maria Clara Machado – 1955

Conta a história do rapto de uma menina (Maribel) pelo malvado pirata Perna-de-Pau. Escondida no sótão de uma velha casa, ela conhece uma família de fantasmas e faz amizade com Pluft, um fantasminha que tem medo de gente.PA peça foi encenada pela primeira vez pelo Tablado no Rio de Janeiro, em setembro de 1955, com direção da própria autora, e recebeu o prêmio APCA. Foi transformada em filme em 1961 por Romain Lesage. Em 1975 foi uma minissérie de TV produzida pela Rede Globo em parceria com a TV Educativa.

Os Saltimbancos – Chico Buarque de Holanda

Uma das expressivas obras de teatro musical dedicada ao público infantil Os Saltimbancos narra as aventuras de quatro bichos que, sentindo-se explorados por seus donos, resolvem fugir para cidade e tentar a sorte como músicos.

A fábula musical foi traduzida e adaptada para o português por Chico Buarque de Hollanda,no final de 1976 da peça teatral de Sergio Bardotti e Luis Enríquez Bacalov, que por sua vez haviam feito uma adaptação do conto “Os Músicos de Bremen”, dos irmãos Grimm, como uma alegoria política, na qual a Galinha representaria a classe operária; o Jumento :trabalhadores do campo; o Cachorro, os militares e a Gata, os artistas. O barão, inimigo dos animais, seria a personificação da elite, ou dos “detentores do meio de produção”

O espetáculo teve estreia histórica no Canecão, no Rio de Janeiro, em agosto de 1977, com direção de Antonio Pedro, e contando no elenco com Marieta Severo (a Gata), Miúcha (a Galinha), Pedro Paulo Rangel (o Cachorro) e Grande Otelo (o Jumento). No coro infantil, estavam, entre outras crianças, Bebel Gilberto (filha de João Gilberto e Miúcha), Isabel Diegues (filha de Nara Leão), Silvia Buarque, Alexandra Marzo e Alice Borges (filha de Antonio Pedro). Os cenários e figurinos foram assinados por Maurício Sette. Chamava a atenção a presença de gigantescos bonecos que representavam os patrões dos bichos e que foram criados justamente nesta proporção para que as crianças pudessem mensurar o poder dos homens em relação aos animais.   Segundo texto do crítico Nelson Motta, que cobriu a estreia para o jornal O Globo, “Embora criado para crianças, Os Saltimbancos pode perfeitamente se inscrever entre os melhores espetáculos para adultos em cartaz na cidade“. Completa Nelson Motta em sua crítica: “(…)Me senti invadido por uma luminosa emoção diante de profunda demonstração de amor e respeito de Chico Buarque para as crianças brasileiras, revelando-lhes numa linguagem simples e direta alguns valores fundamentais para a vida de tantos – adultos e crianças“. O musical ganhou o Troféu Mambembe na Categoria Especial para Chico Buarque pela adaptação da obra, e o Troféu APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de Melhor Espetáculo.

A Revolta dos Brinquedos – Pernambuco de Oliveira e Pedro Veiga

A peça conta a história de umas menina que maltrata seus brinquedos. Um dia os brinquedos ganham vida e decidem fugir, mas antes disso, resolvem dar uma lição nas meninas, fazendo com que se conscientizem dos erros e se arrependam das maldades que fizeram. O texto aborda valores como bondade, respeito e amizade.

Deus Lhe Pague – Joracy Camargo – 1932

 

Primeira peça teatral brasileira encenada no exterior, Deus lhe pague é história de um mendigo que resolve vingar-se da sociedade.
Richardson pede esmolas na proximidade de uma igreja, mas ele vai mal. Ninguém parece se importar. Outro mendigo, Mario está instalada nas proximidades e tem muito êxito em receber esmolas das pessoas. E Richardson aparece pedindo conselho, e Mario, sem dúvida, dar-lhes, mas o último, o mais importante na vida é para compartilhar, e não ser egoísta. É nestas circunstâncias que uma bela jovem, bonita, com um comportamento refinado aparece. A Richardson apenas lhe dá algumas moedas, no entanto, a Mario dá-lhe um bilhete.

Vestido de Noiva – Nelson Rodrigues – 1943

A peça é um marco na história da dramaturgia nacional. A primeira montagem, em dezembro de 1943, deu início ao processo de modernização do teatro brasileiro.
Essa era a segunda peça escrita por Nelson. A montagem foi realizada sob a direção do polonês Zbigniew Marian Ziembinski, que chegara ao Brasil cerca de dois anos antes. Experiente encenador, Ziembinski deu forma ao texto de Nelson. Seu rigor na encenação, com a exigência de ensaios constantes, levou a concepção brasileira de teatro a novos níveis.
A grande tensão que permeia a peça não se mostra apenas no antagonismo entre Alaíde e Lúcia, mas nas relações conflitantes entre todos os personagens. Nas cenas,  angústia da culpa supera sempre os tons de ternura amorosa com que geralmente são apresentados os laços familiares. As relações de desejo são também relações de ódio.

Calabar: O Elogio da Traição – Chico Buarque  Ruy Guerra – 1973

A peça relativiza a posição de Domingos Fernandes Calabar no episódio histórico em que ele preferiu tomar partido ao lado dos holandeses contra a coroa portuguesa,

a quando a Insurreição Pernambucana. Vivia o Brasil sob o regime ditatorial militar de Portugal, fruto da Guerra da Restauração, e era comum o uso das metáforas nas produções artísticas a fim de, por um lado, burlar a censura rigorosa do sistema (sendo popular a figura de Armando Falcão, Ministro da Justiça, encarregado dessa tarefa canhestra) e, por outro, denunciar a situação contemporânea. Chico Buarque foi um mestre no uso dessas figurações: e o episódio histórico do traidor Calabar, comum em todos os livros didáticos como um dos maiores exemplos de perfídia – serviu de mote para justamente questionar a chamada versão oficial.

Na peça, Domingos Calabar passa de comerciante que visava o lucro e que, por isto, traíra os portugueses e colonos brasileiros – para um quase herói, que tinha por objetivo não o ganho pessoal, mas o melhor para o povo brasileiro (na verdade um conceito ainda inexistente, no século XVII). A intenção dos autores, porém, não era denunciar um erro histórico, nem tinha a pretensão de promover uma revisão: o alvo era, justamente, o próprio regime militar, sua censura, os veículos de comunicação que, engessados pelas versões dos fatos sempre acordes com o sistema, passavam ao povo imagens que precisavam ser questionadas em sua veracidade.

A censura do regime militar deveria aprovar e liberar a obra em um ensaio especialmente dedicado a isso. Depois de toda a montagem pronta e da primeira liberação do texto, veio a espera pela aprovação final. Foram três meses de expectativa e, em 20 de outubro de 1974, o general Antônio Bandeira, da Polícia Federal, sem motivo aparente, proibiu a peça, proibiu o nome Calabar do título e proibiu que a proibição fosse divulgada. O prejuízo para os autores e para o ator Fernando Torres, produtores da montagem, foi enorme. Seis anos mais tarde, uma nova montagem estrearia, desta vez, liberada pela censura.

O Jardim – Leonardo Moreira – 2011

“O jardim” é o terceiro espetáculo criado pela Companhia Hiato. Em cena, histórias de tempos e espaços diferentes se sobrepõem, criam fricções entre si , se completam ou se contradizem. Essas diferentes perspectivas criam um jogo fractal de reconhecimento e estranhamento das situações apresentadas e reapresentadas de forma vertiginosa. Propõe-se um jogo com a própria memória do público que, ao rever uma cena já vista – mas desta vez cheia de lacunas – é levado a recriar em sua memória os diálogos, é conduzido a reinventar a cena sob seu olhar e lembrança intransferíveis.
Outros elementos fazem da memória também uma escolha estética para o trabalho, como a a visão parcial do público. Buscando equivalência a uma memória, as três histórias são contadas sobre diferentes perspectivas, por vezes contraditórias. Não se trata de mostrar vários pontos de vista de uma mesma situação mas sim de ressaltar a subjetividade implícita em cada encontro, a relatividade do que constitui a nossa história.
Em “O jardim”, o público é distribuído em três espaços diferentes e sua visão é mediada por essa distribuição, já que o cenário de caixas é construído e reconstruído em cena, de modo a criar mundos imaginários, a transformar momentos já vistos em lacunas e a fragmentar a fruição da fábula. Tudo isso para expressar, também em sua estética e não só na dramaturgia, o ato criativo que é rememorar.

O Rei da Vela – Oswald de Andrade – 1933
Só foi publicada pela primeira vez em 1937, única edição em vida do autor. Contudo, só foi encenada pela primeira vez trinta anos mais tarde, porque o texto havia sido considerado inviável para apresentação até então. É considerada a mais célebre do autor. Escrita no embalo da crise financeira de 1929, teria sido influenciada pela própria aflição financeira do escritor. Suas personagens, membros da elite burguesa e rural, são retratadas como ridículas e decadentes, envolvidas em falcatruas, exploração, falta de moralidade e sexualidade conturbada.

Eles não usam Black-tie – Gianfrancesco Guarnieri – 1958 

21

Assista filme completo

A peça tem como tema central a greve e a vida operária, com preocupações e reflexões universais do ser humano. Em 1981 foi feita uma versão homônima da peça para o cinema, dirigida por Leon Hirszman e protagonizada pelo mesmo Guarnieri. “Black Tie” trouxe os camponeses e gente simples que a cena teatral e que já haviam sido anteriormente objeto de representação no teatro brasileiro, como em textos de Arthur Azevedo e Nelson Rodrigues.

A direção da peça foi realizada por José Renato com músicas de Adoniran Barbosa, encenada no Teatro de Arena, um pequeno teatro de noventa lugares em frente a praça da Consolação em São Paulo, adaptado de uma garagem, hoje Teatro Eugênio Kusnet. A estreia da peça foi a 22 de fevereiro de 1958. Foi a escolhida no Seminário de Dramaturgia do Teatro de Arena e tirou-o da falência iminente, dado o sucesso de bilheteria. Ficou mais de um ano em cartaz em São Paulo, fato inédito no teatro brasileiro.

A Navalha na Carne – Plínio Marcos – 1967

A peça, de Plínio Marcos, se passa em um quarto de bordel, onde a prostituta Neusa Sueli, o cafetão Vado e o homossexual Veludo, empregado do estabelecimento, encarnam a existência subumana e marginalizada. A montagem, proibida pela Censura, na sequência ganha repercussão no Rio de Janeiro, dirigida por Fauzi Arap e trazendo Tônia Carrero no papel feminino. Retrato naturalista do submundo brasileiro em que as gírias, a violência das relações humanas, a situação opressora e a luta de cada personagem constroem um quadro cuja dramaticidade sobrevive ao tempo, Navalha na Carne é a obra mais encenada do dramaturgo, ao lado de Dois Perdidos Numa Noite Suja. A peça pode ser vista como metáfora dos mecanismos de poder entre as classes sociais brasileiras, uma vez que as personagens, embora pertençam ao mesmo estrato social, se dedicam a uma contínua disputa pelo domínio sobre o outro. Nessa disputa, as personagens vão da força física à chantagem pela autopiedade, da sedução à humilhação, da aliança provisória entre dois na tentativa de isolar o terceiro, mas a possibilidade de juntar suas forças para lutar contra a situação que os oprime nunca é cogitada.

Agreste – Newton Moreno

  • Baseada em reportagem verídica, Agreste é um drama de amor e pobreza no interior nordestino, narrado por dois contadores de história. É um vigoroso manifesto

    poético, uma fábula que trata ao mesmo tempo sobre intolerância, preconceito e amor incondicional.“Desejar ser”, “ilusão”, “amar a gente” são alguns dos temas abordados na peça. Aborda também temas intensos que por séculos fazem parte do cotidiano como: amor incondicional, homoerotismo, preconceito social e ignorância. Podemos dizer que, sobretudo, o enredo da peça gira em torno da complexidade das relações humanas. O texto de Newton Moreno tem uma estrutura aberta, mais de provocação do que naturalista. O texto da peça tem três grandes blocos. O primeiro é o tempo mítico. “Ele andava muito para encontrá-la.” Tudo é indeterminado. No segundo bloco, “naquele dia, naquela manhã…”, é o tempo focado. O terceiro é a condição psicofísica dos personagens. “O sol”, “muito tempo caminhando”.

Ópera do Malandro – Chico Buarque – 1978

Focaliza uma terra Brasilis de malandros e seus gingados, com um linguajar típico de quem vive às margens da lei, um cafetão de nome Duran, que se passa por um grande comerciante, e sua mulher Vitória, que do nome nada herdou. Vitória era uma cafetina que, na realidade, vivia da comercialização do corpo. A sua filha.Teresinha era apaixonada por uma patente superior, Max Overseas, que vive de golpes e conchavos com o chefe de Polícia Chaves. Outras personagens são as prostitutas, apresentadas como vendedoras de uma butique, e a travesti “Geni”, que só serve para apanhar, cuspir e dar para qualquer um. A peça se passa nos anos 40, época do Casino da Urca, tendo como pano de fundo a legalidade do jogo, a prostituição e o contrabando.

 

Cais ou da Indiferença das Embarcações – Kiko Marques – 2012

No fim de outubro de 2012, a montagem da Velha Companhia estreou de mansinho no Instituto Cultural Capobianco. Fez-se, então, um boca a boca em torno do drama épico escrito e

dirigido por Kiko Marques. Algo compreensível não apenas por sua história arrebatadora, que enfoca três gerações de uma família, mas também pela forma como a encenação simples reproduz a trama ambientada na Ilha Grande, no litoral fluminense. No fim da década de 20, a garotinha Magnólia conhece um rapaz crescido , e os dois se apaixonam. A Revolução de 30 e o Estado Novo afastam a possibilidade de um reencontro, e ela se casa com outro. Quem traz essa história à tona — e suas consequências trágicas — é um narrador que representa um barco. Efeitos especiais ou recursos sofisticados são dispensados. Em cena estão dois músicos e doze atores.

 

Por Elise – Grace Passô – 2005

Uma Dona de Casa que narra histórias de seus vizinhos; um Cão que late palavras; um Lixeiro em busca de seu pai que há anos não vê; uma Mulher perdida; um Funcionário que trabalha como recolhedor de cães doentes, protegido em um uniforme que faz com que ele não sinta nem quando o espancam, nem quando o amam. Por Elise é a primeira criação do Espanca! e deu base para a origem do grupo. Possui a simplicidade do espaço vazio e a potência da semente de uma árvore frutífera. É composta por situações que primam pela teatralidade nas revelações constantes das relações humanas, pois é no encontro entre esses personagens que se revela o universo humano de cada um. Como uma fábula sobre o comportamento do homem contemporâneo: as contradições dos sentimentos, as formas como vive medindo o quanto se envolve com as coisas, o quanto se protege delas. E nessa busca, o amor espanca os homens, docemente. Por Elise estreou dia 22 de março de 2005 no teatro José Maria Santos, em Curitiba, Paraná. O espetáculo já foi visto por aproximadamente 34.000 pessoas em 185 sessões realizadas em 50 cidades de todas as regiões do país. Além de apresentações em Berlim, na Alemanha, compôs a programação de 27 festivais nacionais e internacionais do Brasil. Fez temporadas em Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Venceu os Prêmios APCA e Shell-SP de melhor dramaturgia. O Espanca! ainda foi indicado na categoria especial do Shell, pela criação e concepção do espetáculo. A peça recebeu ainda o prêmio SESC-SATED/MG de melhor espetáculo e texto.

Liberdade, liberdade – Millôr Fernandes e Flávio Rangel – 1965

Estreou no palco no mesmo ano. É um marco da história teatral do Brasil por ter sido o texto de maior sucesso do chamado teatro de protesto, conjunto de peças, na maior parte, musicais, que criticavam a repressão imposta pelo golpe militar de 1964.
Liberdade, Liberdade recorre a textos de vários autores sobre o tema que dá a título a peça, entremeados por números musicias. Quatro atores interpretam 57 personagens e se revezam

na interpretação de textos de Sócrates, Marco Antônio, Platão, Abraham Lincoln, Martin Luther King, Castro Alves, Anne Frank, Danton, Winston Churchill, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Geraldo Vandré, Jesus Cristo, William Shakespeare, Moreira da Silva e Carlos Drummond de Andrade, entre outros. E também cantam 30 canções ligadas ao assunto. O tom varia do dramático ao cômico, do discurso político mais explícito ao lirismo da poesia.

A versão original estreou num teatro improvisado no Rio de Janeiro, em 1965, no dia 21 de abril, Dia de Tiradentes, o Mártir da Independência. Com direção de Flávio Rangel e elenco era formado por Paulo Autran, Tereza Rachel, Nara Leão e Oduvaldo Vianna Filho, numa produção conjunta do Teatro Opinião e do Teatro de Arena de São Paulo. A repercussão nacional e internacional foi imediata. Até o New York Times registrou o sucesso do mais ambicioso dos espetáculos de protesto. O sucesso da peça repercute nos mais altos escalões governamentais. O presidente Castello Branco, em nota de 2 de junho de 1965, dirigida a seu sucessor Arthur da Costa e Silva, afirma que as ameaças (da peça) são de aterrorizar a liberdade de opinião. Em 1966, a Censura Federal proíbe a apresentação de Liberdade, liberdade em todo o território nacional,  que só voltou a ser montada em 2005, com direção de Cibele Forjaz.

O Pagador de Promessas – Dias Gomes – 1960

A peça é dividida em três atos, sendo que os dois primeiros ainda são subdivididos em dois quadros cada um. A história se passa na cidade de Salvador, já em processo de modernização. O personagem principal, o sertanejo Zé-do-Burro, deseja levar uma grande cruz até o interior da Igreja de Santa Bárbara para pagar uma promessa e, ao longo do trajeto, sofre com as mentiras, com a corrupção e com a ganância da sociedade.

Encenada pela primeira vez em São Paulo pelo TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) no ano de 1960. A peça inspirou um filme homônimo, de 1962, que venceu o prêmio Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Quem casa quer casa – Martins Pena – 1845

A peça Quem Casa Quer Casa foi escrita em 1845 por Martins Pena. O enredo se desenrola na cidade do Rio de Janeiro. Tem apenas um ato e os personagens eram: Nicolau, marido de Fabiana, mãe de Olaia e Sabino. Anselmo , pai de Eduardo, irmão de Paulina, dois meninos e um homem. É uma comédia que mostra o dia a dia de uma família onde os genros com os filhos moram na mesma casa com os sogros. As reclamações e a luta pelo poder levavam a platéia ao delírio.

O Abajur Lilás – Plínio Marcos – 1969    

Escrita em plena ditadura militar, a peça só foi liberada pela Censura onze anos depois, em 1980. Tendo a montagem sido interrompida e retomada um par de vezes até sua liberação, O Abajur Lilás mobilizou toda a classe teatral, tornando-se símbolo de persistência.

A ação tem lugar no prostíbulo de Giro, um homossexual desapiedado que conta com Osvaldo, um segurança violento, para fazer valer sua autoridade ali. Em estado de extrema degradação humana, três prostitutas tentam sobreviver. Dilma se apega aos valores e ao filho que precisa criar; a rebelde e inconsequente Célia só deseja tomar o prostíbulo e o poder para si; Leninha é novata no lugar, individualista e parece não se abalar com os conflitos alheios. Tudo se complica quando um abajur aparece quebrado no dormitório e nenhuma das três assume a culpa. Sem disfarces nem qualquer piedade, Plínio Marcos retrata as camadas mais marginalizadas da sociedade, seres sem perspectiva outra que sobreviver um dia após o outro de uma vida ingrata. As três prostitutas, o cafetão e o segurança fazem o que podem para defender o que é seu em um entorno marcado pelas relações de poder, onde a justiça parece não existir e os interesses individuais ditam as leis.

Morte e Vida Severina – João Cabral de Melo Neto – 1955

Foi escrito por encomenda de Maria Clara Machado, então diretora do grupo O Tablado, que não pôde levar ao palco a peça. Publicado inicialmente no livro Duas Águas (1956), o texto foi

finalmente montado pelo grupo do TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo), dirigido por Roberto Freire e Silnei Siqueira, com música de Chico Buarque de Holanda, e obteve sucesso mundial numa turnê em 1966. A partir daquele ano, passou a integrar o volume Poemas em Voz Alta, que reúne a parcela mais comunicativa da obra do “poeta engenheiro”.

A temática está centrada na trajetória de Severino, um retirante nordestino, que abandona o sertão rumo ao litoral em busca de sobrevivência. O autor deixa claro que não fala de um só Severino, mas de um grande grupo: os retirantes nordestinos, que têm todos a mesma sina, a morte e a vida Severina: “Somos muitos Severinos, iguais em tudo na vida”. No decorrer do poema, Severino se põe a contar as durezas enfrentadas por essa gente: as jornadas para fugir da seca onde não nasce nem planta brava, em busca de terra que lhe dê o que comer.

Fala Baixo Senão eu Grito – Leilah Assumpção – 1969

Recebeu o prêmio Molière e o prêmio da APCT – Associação Paulista de Críticos Teatrais, atual Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). A direção foi de Clóvis Bueno. A atriz Marília Pêra fez o papel de Mariazinha, uma solteirona virgem que vive em um pensionato de freiras. Paulo Villaça fez o ladrão que, numa certa noite, pula a janela do quarto de Mariazinha com a intenção de roubar. Na conversa entre os dois, que dura a noite toda, a solteirona revela ao público e si mesma suas frustrações

Fábrica de Chocolate – Mário Prata – 1979 

Fábrica de Chocolate é um desafio para todos. É um desafio porque nos obriga a encarar frontalmente um tema que até há bem pouco tempo era tabu em letra de forma e se falava apenas a meia voz, olhando em volta pelo canto do olho: a tortura. Um fato oficialmente desmentido e que ironicamente às vezes se comprovava, praticado por aqueles que o negaram, naqueles que afirmavam a sua existência. É um desafio sob o ponto de vista da dramaturgia, porque o autor, recusando a emoção que poderia criar a partir da condição da vítima — emoção amplamente justificada — optou por aprofundar a sua perplexidade, buscando entender os valores e a mecânica daqueles que exercem essa função degradante. Quando um homem se avilta, aviltando um outro homem, todos nós somos esses dois homens. E para recusarmos essas duas faces, para cunharmos uma nova moeda, Mario Prata procurou compreender e mostrar o lado mais infamante. O lado dos torturadores. “O torturador é um resultado, não um ponto de partida.”

De Braços Abertos – Maria Adelaide Amaral – 1984

A peça teve como intérpretes Irene Ravache e Juca de Oliveira. Tem uma trama centrada na relação entre o casal, seja no passado da relação vivida, seja no presente do reencontro depois de cinco anos. Recebeu os principais prêmios em 1984: Molière (atriz e autora); Mambembe (atriz, autora e produção); APETESP (autora, diretor, espetáculo, produção executiva e trilha sonora).

A peça retrata o romance extraconjugal do Sérgio, jornalista e profissionalmente frustrado, e Luísa, jornalista e rica. Ambos casados, se conhecem no ambiente de trabalho. Numa relação bastante conturbada, o casal de amantes travam um verdadeira disputa. As armas do Sérgio nesta disputa são sua ironia e seu sarcasmo. Luísa, com a convivência, passa a adotar comportamento similar. Há momentos de carinho, mas grande parte do tempo em que estão juntos é orientada por desentendimento e enfrentamentos. Cinco anos se passam, e eles se reencontram. A partir deste ponto a trama se desenvolve em torno da relação.

Roque Santeiro ou O Berço do Herói – Dias Gomes – 1963 

A peça “O Berço do Herói” foi escrita em 1963 e deveria ter sido encenada em 65, mas foi censurada pelo governo militar. Em 1975 Dias Gomes resolveu adaptar a obra para a televisão. Mas,

novamente, a história foi proibida. Dez anos depois, em 1985, já com o país vivendo o processo de redemocratização, a novela foi levada ao ar. O sucesso foi estrandoso e imediato. Tal foi o êxito, nacional e internacional da novela, que uma nova edição da peça foi retrabalhada por Dias Gomes. O autor resolveu enriquecê-la com cenas que lhe foram sugeridas pela novela. Assim, Dias Gomes dá um presente a seus leitores: a oportunidade de, novamente, rir, pensar e se emocionar com as loucuras da viúva Porcina, a esperteza de Sinhozinho Malta e o “progresso” de Asa Branca.

Roda viva – Chico Buarque – 1967  

Estreou no Rio de Janeiro no início de 1968, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa. Foi a primeira incursão de Chico Buarque na área da dramaturgia.
Na estreia, fizeram parte do elenco Marieta Severo, Heleno Prestes e Antônio Pedro, nos papéis principais, e a temporada foi considerada um sucesso. Durante a segunda temporada, com Marília Pêra, André Valli e Rodrigo Santiago substituindo o elenco original, a obra virou um símbolo da resistência contra a ditadura militar. Um grupo de cerca de cem pessoas do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), invadiu o Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, e espancou os artistas e depredou o cenário[1]. Segundo a Revista O Cruzeiro, de 9 de novembro de 1968, participaram do ataque ao elenco do espetáculo Roda Viva, João Marcos Monteiro Flaquer (comandou o ataque), Francisco José Aguirre Menin, Sílvio de Salvo Venosa, Cássio Scatena, Henri Penchas, Antônio Salvador Sucar, Flávio Bernardo Caviglia, Raul Careca, Souvenir Assumpção Sobrinho, Paulo Roberto Chaves de Lara, Newton Camargo Rosa e José Augusto Bauer. Após o revés na capital paulista, o espetáculo voltou a ser encenado, desta vez em Porto Alegre. No entanto, os atores da peça voltaram a ser vítimas da violência e intransigência do CCC e, após este segundo incidente, o Roda Viva deixou de ser encenada. Mas esta é considerada uma das mais importantes peças de teatro brasileiras já produzidas nos anos 60.
O espetáculo conta a história de um ídolo da canção que decide mudar de nome para agradar ao público, em um contexto de uma indústria cultural e televisiva nascente no Brasil dos anos 60. O personagem é a representação de uma figura manipulada – pela indústria fonográfica e/ou imprensa – que promove uma reflexão sobre a cerca da sociedade de consumo.

Palhaços – Timochenco Wehbi – 1971   

De um lado, o Palhaço Careta, artista, excluído, esmagado, enganado, consciente de tudo. E do outro, o Visitante, um homem comum, que sofre o mesmo processo, mas se acomoda, se conforma e não quer encarar a realidade. O espetáculo, de uma forma geral, revela o confronto destas duas situações humanas: o homem aspirando ser bem sucedido em seu trabalho de vendedor de sapatos e o artista, cujos valores encaminham-se contra a vida sem sentido. O Visitante vai ao Circo em busca de fantasia e fuga de seus problemas cotidianos, mas, ao entrar no camarim do Palhaço, defronta-se com a outra face no espelho, conhecendo uma nova realidade. A técnica da inversão dos papéis, característica do psicodrama, é utilizada com eficiência. Num determinado momento, o Palhaço assume a condição do Visitante e este a do Palhaço. O resultado é a possibilidade que o Palhaço dá ao Visitante de, ao mesmo tempo, fazer uma auto-análise e saber como é a real vida de um artista.

A Morta – Oswald de Andrade – 1973

A Morta é a última e a mais densamente poética das peças teatrais de Oswald de Andrade. Nela a ação dramática foi reduzida ao mínimo e se apresenta sobretudo através de vozes e devaneios de figuras fantasmagóricas de um mundo em ruínas. O teatro se presta ao escritor militante e comunista dos anos 30 para forjar uma imagem complexa da corrupção da vida e da agonia burguesa. Ao contrário de “O Rei da Vela”, que revolucionou a história do teatro moderno no Brasil por ocasião da montagem do Teatro Oficina, A Morta continua à espera de uma imaginação cênica capaz de desvendar as sugestões do seu lirismo, conquistando sua beleza forte e hermética definitivamente para o palco.

A Capital Federal – Artur Azevedo – 1897 

Sempre envolvido em questões nacionais, seja no teatro, como no jornalismo e na vida pública, Azevedo registra com “A Capital Federal” sua visão crítica do crescimento urbano e suas contradições através de personagens estigmatizados. E apoiado nesses estereótipos de alguns segmentos sociais, que seguem uma seqüência de quadros que representam uma panorâmica da cidade, o texto mostra eficiência no seu objetivo de apresentar com humor os costumes urbanos do final do século XIX. Seguindo regras de conduta moral, que sublinha a visão do autor da realidade, como também na busca do efeito , que subverte essa mesma visão, “A Capital Federal”, enquanto literatura teatral, propõe leituras que, em princípio, parecem contraditórias. Se concessões são feitas à moralidade vigente, como a punição das personagens que violam as regras do convívio social e com um desfecho que apela para o sentimentalismo, por outro lado o texto explora uma renovação da linguagem teatral, que combina os modelos da cena burlesca com uma composição das personagens, que enquanto tipos, supõe-se baseados na realidade.

Trair e coçar é só começar – Marcos Caruso – 1986   

É considerada um dos maiores sucessos de público no Brasil, sendo encenada desde 1986, é a peça teatral há mais tempo em cartaz em todos os tempos e acumula números impressionantes: Mais de 6 milhões de espectadores, mais de 9 mil apresentações, 4 vezes no Guiness Book, Prêmio Quality Cultural e homenagem pela Assembleia Legislativa de São Paulo. A peça gira em torno de meras hipóteses de adultérios, geradas por equívocos e confusões provocadas por uma empregada, que se aproveita da desconfiança geral entre os casais do enredo para subornar seus patrões e amigos. A estória conta com três casais, um padre e um vendedor de jóias que se torna, sem querer, o pivô de uma série de suspeitas de traição. É uma comédia de costumes com todas as confusões do gênero. Tem como fio condutor a empregada Olímpia que complica e descomplica a ação e uma série de personagens à beira de um ataque de nervos.

Savana Glacial – Jô Bilac – 2010  

Ganhadora do Prêmio Shell e indicada ao APTR por melhor dramaturgia, a montagem foi eleita uma das dez melhores peças de 2010, pelo jornal O Globo e participou dos principais festivais nacionais e internacionais do país, obtendo sucesso de público e crítica por onde se apresentou. Neste espetáculo, realidade e ficção são tensionadas num jogo cênico construído em processo colaborativo com o autor Jô Bilac, atualmente considerado um dos mais promissores autores da nova safra de dramaturgos brasileiros. As camadas temporais e espaciais deste espetáculo se sobrepõem. São desenhadas e arquitetadas pelos corpos dos atores, apresentando uma leitura particular sobre a memória, utilizando mínimos recursos e apoiando-se na fisicalidade para extrair o máximo das palavras.

Pano de Boca – Fauzi Arap – 1975

Traz a única discussão oportuna nos tempos atuais sobre a criação, o teatro e a espiritualidade em um tempo onde a esquizofrenia é gerada pela velocidade, atirando o homem no abismo da disputa pelo

sucesso, do isolamento, da poluição sonora e da intolerância.
O texto de “Pano de Boca” é estruturado em três planos. No primeiro, dois personagens indefinidos, palhaços inacabados, reclamam vida dentro da cabeça de um autor em crise. No segundo, uma atriz dialoga com alguém que não se vê sobre os acontecimentos que motivaram a desintegração de um grupo. E, no terceiro, o próprio grupo tenta reabrir o teatro abandonado em uma reunião convocada por alguém não identificado. A peça se funde em uma discussão sobre a criação, a exclusão e o sagrado no teatro. Os atores transitam por linguagens diferentes, como o realismo, o circo e um quase surrealismo, diferenciando os três planos aparentemente distintos do texto, que fluem para um caminho único.

Geração Trianon – Ana Maria Nunes – 1988 

A peça diz respeito ao majestoso teatro Trianon do Rio de Janeiro, onde passaram-se grandes nomes da época, entre autores, artistas, empresários e críticos, que discutiam e resolviam, ali, os rumos da classe teatral. O espetáculo começa com a Companhia em cartaz, apresentando “A Ceia dos Cardeais”, mas com um eterno problema, a ausência de público. Devido a este fato, a companhia resolve montar outro espetáculo, mostrando assim o ensaio e todas as etapas para uma montagem juntamente com as figuras dominantes no teatro brasileiro da época até a execução do espetáculo. Neste texto podemos ver figuras marcantes que já foram extintas e outras que existem até hoje, como: O Ponto, Esse menino, Empresário, Ensaiador, Mocinha, entre outros.

Bailei na Curva – Júlio Conte – 1983 

A peça mostra a trajetória de sete crianças, vizinhas da mesma rua na cidade de Porto Alegre, durante três décadas. Tem como pano de fundo os fatos políticos a partir do golpe militar de abril de 1964 até o movimento das Diretas Já, em 1984.
É uma das peças de maior sucesso do teatro gaúcho, baseada em improvisações dos atores Flávio Bicca, Márcia do Canto, Lúcia Serpa, Hermes Mancilha, Regina Goulart e Cláudia Accurso.

Do gênero comédia dramática, a peça foi escrita e encenada pela primeira vez em 1983, no Theatro São Pedro, com grande aceitação do público e da crítica. Depois disso, teve diversas montagens. A peça conta com 48 personagens, interpretados por oito atores, quatro homens e quatro mulheres.

 A Invasão – Dias Gomes – 1960 

Enfoca o proletariado urbano como massa onde não é possível a emergência do protagonismo ou a unidade de ação. Na época, sua fonte de inspiração foram os constantes desabamentos em morros

cariocas durante os temporais de verão. Texto dos mais polêmicos das obras de Dias Gomes, A Invasão estreou em 1962, sendo proibido pelo AI-5, seis anos depois. É um drama intenso e amargo. O autor investiga causas e conseqüências dos nossos problemas sociais numa linguagem despojada e contundente. Aponta soluções drásticas num país onde impera a desigualdade social e vive de politicagem. A peça é uma espécie de crônica ao Brasil depois de 1964. Dias Gomes quer alertar o povo da necessidade de ser independente.

A obra foi baseada em um fato real: no final dos anos 50, um edifício em construção próximo ao Estádio do Maracanã no Rio de Janeiro foi invadido e ficou sendo conhecido como Favela do Esqueleto. Hoje a favela não existe mais, no edifício funcionam alguns cursos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Na obra, Dias Gomes aborda o problema dos sem teto nos centros urbanos. Enfoca o proletariado urbano como massa onde não é possível a emergência do protagonismo ou a unidade de ação. A peça narra uma dessas invasões que se repetem até os dias de hoje.

Comentários

comentários

Categoria

Notícias

Deixe uma resposta